Entrevista Capitalista Morena

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Adriano é professor do IBMEC-MG, onde ensina Ciência Politica, Politica Econômica Internacional, Historia do Pensamento Econômico. PhD em Teoria Política e Econômica pela Universidade de Genova. É autor do livro “O empreendedorismo de Israel Kirzner” e de publicações sobre Bruno Leoni, Israel Kirzner, Abstencionismo e votos brancos, Democracia e desenvolvimento, etc. Também é membro do Laboratorio de Analise Politica (LAP) da LUISS de Roma e membro do Comitê Cientifico da Revista Acadêmica Mises e seus artigos saíram nos principais jornais do país. Adriano é um dos grandes propagadores das ideias da liberdade e a entrevista hoje é com ele.

Você defende as ideias da liberdade há quanto tempo? Como você vê o movimento pró liberdade no Brasil da atualidade?

Eu diria que defendo as ideias da lógica! Não sei, mais de 10 anos.
O vejo muito de forma muito positiva e otimista. Em poucos anos, o movimento cresceu muito e isso vai ter um pacto. Ao mesmo tempo, na medida na qual um movimento se expande, o nível médio da qualidade cai, isso é normal. O perigo é que cresça mais de quanto se aprofunde. Precisa focar mais na ciência, nos estudos, revistas acadêmicas, e menos em ativismo e política. Entendo que a atração de curto prazo possa ser forte, mas no longo prazo assim não se conclui nada.

Assisti sua participação no painel sobre educação no Fórum da Liberdade e Democracia de São Paulo em 2016. Qual a sensação de participar de um evento tão importante?

Nenhuma, faz parte do meu trabalho. Agradeço muito os organizadores e quem me convidou. Gosto muito de debater ideias.

Você é italiano, correto? Qual a motivação para vir para o Brasil? Na sua opinião, entre Brasil e Itália, qual destes tem melhores perspectivas para um futuro mais livre?

Sim. Minha mulher.
O Brasil com certeza absoluta. Precisa distinguir entre fluxo e estoque.
A italia está perdida, não vejo nenhuma margem de melhora nem no médio prazo. A economia vai mal, lentamente mas inexoravelmente mal; a política está em uma paralisia faz uns 20 anos; o debate publico caiu de nível, agora tem estes movimentos anti-sistema, complotistas meio neo-marxistas (sem saber). É o país onde cresce mais o vegetarianismo, voltou a difteria, está voltando a poliomielite, por culpa destas idiotices anti-vacina. Decadencia mesmo. A italia está morrendo lentamente, mas bem vestida!
O brasil tem tudo a ganhar, pior que está não fica, nem com Tiririca! Temos alguns anos de vacina marxista, o debate está subindo um mínimo de nível, o debate online é melhor que o na mídia tradicional (o contrario da Itália), a politização no mundo das ideias está ficando muito claro e aí vai diminuir, os marxistas estão perdendo a batalha das ideias, não sabem nem como responder. Mises hoje é o nome de economista mais pesquisado no google, etc. O lema “privatize a Petrobras” nunca foi tão popular!

Além de ser professor do IBMEC, sei que você já participou de inúmeras palestras e realizou inúmeros seminários pelo Brasil. Qual a primeira impressão dos alunos Brasileiros? Já teve algum problema sério com alunos de orientação política e econômica oposta a sua?

Palestras tem nada a ver com aulas. Nas palestras falo só da minha opinião, só dos autores que gosto. Nas universidades se ensina de tudo. você mesmo faz esta pergunta porque deve estar acostumado a um clima acadêmico muito politizado, eu não. Nunca vi isso. Na universidade não se fala de opiniões e não se cobra a opinião do professor.  Se ensina simplesmente como funciona a política, como funciona a economia etc. Se eu, o aluno ou o papa gostamos de como funcionam não importa.
A relação professor-aluno aqui é totalmente diferente, inversa mesmo. O status do professor é muito baixo. É o pais com a maior indisciplina em sala de aula do mundo (fiquei surpreso com o nível, pesquisei dados online e achei uma pesquisa que mostra isso). Os dados internacionais do PISA são claros sobre o nível. Há uma bolha, há muitas pessoas que não deveriam estar estudando, há muito dinheiro gasto nesta área de forma ineficiente. Claro, há algumas exceções como o IBMEC, que é uma ilha feliz nestes sentidos.
Na minha área (ciências sociais), tem o grande problema do marxismo e do marxismo didático “paulofreirismo”, é geral e muito sutil. O cérebro dos alunos é plasmado mesmo. Funciona assim: como marxistas e neo-marxistas não acreditam na ciência, pois acreditam que ela só serve interesses econômicos e que na verdade seja uma mascara, nunca respondem no mérito da questão, mas sempre perguntam “porque ele está falando o que está falando? Será que tem algum interesse?” Os alunos são treinados assim. O professor não ensina, “problematiza, conversa, bate um papo, fazem debates, cutuca o espirito critico, disperta raiva, faz revoltar. Então ninguém aprecia o conhecimento em si, a ciência pela ciência, tudo é só em função politica. Os alunos não gostam de estudar, não são curiosos intelectualmente, se interessam pelas coisas só pela questão politica, estudam algo e logo querem “resolve-lo” como se o funcionamento normal de x fosse um problema, só porque eles querem um mundo ideal diferente. Por ex. você mostra como funciona de fato o processo legislativo e logo “como posso resolver isso?”, “Resolver o que?”, “Este problema!”, “mas quem falou que é um problema? É só seu funcionamento normal. É assim”. Ou seja, é como se em lugar de construir uma ponte tomando em consideração a lei da gravidade, quisessem “resolver” a gravidade!
A mente é muito boa para pensar no que está por tras de tudo, e péssima para entender como funcionam as coisas em si.

[Essa resposta foi tão sensacional que até fiz esse adendo pra demonstrar]

A liberdade de expressão é um bem frágil, que pode ser censurado de várias formas. Vivemos em uma geração sensível a palavras. Para você a liberdade de expressão deve ser limitada de alguma forma?

Sim, socialmente. E só isso. Nunca politicamente. Cada um fala o que quer e enfrenta as consequências sociais.
Os vícios não são crimes. Todo mundo entende isso, até um marxista. Eles querem limitar a liberdade de expressão só por motivos políticos, só para usar contra os próprios inimigos e dar privilégios aos próprios grupos.
Precisa entender que quem se ofende facilmente tem um problema, precisa ser tratado. Problema psicológico não é posição politica, nem argumento cientifico.

Sempre que posso acompanho suas postagens no facebook. Sou a favor dos vouchers para a educação e saúde, mas diferente de você, não tenho o mesmo conhecimento para debater sobre o assunto. Por quais motivos os vouchers são a solução para a educação e saúde?

Na verdade tenho minhas reservas sobre vouchers. Parecem uma boa ideia, mas podem ser deturpados facilmente pelo governo. Uma vez que o governo da vouchers, logo decide onde você pode usar e começa a regulamentar…só em escolas com x e y requisitos, só em hospitais com a e b…e logo exclui e inclui quem quer. Isso é perigoso.

Boa parte dos que defendem as ideias Austríacas são economistas. Você é cientísta político e defende essas ideias. Qual a relação da política com a economia austríaca?

É uma questão fundamental. A EA é uma escola principalmente econômica, mas não só. Para os austríacos as ciências sociais são uma única área de conhecimento, a “ciência do homem que vive em sociedade” (B. Leoni). Basicamente em politica o ser humano usa a coerção, a coerção é um meio como os outros, imoral mas um meio a disposição como os outros. Bastiat e Oppenheimer já falaram da “opção preferencial pelo poder” todas as vezes que puder, o homem escolherá usar o poder, se for mais conveniente, o fará, isso vai do menino que quer fazer concurso (para ter “qualidade de vida”), à corrupção; do acato, ao foro privilegiado; das guerras  ao lobismo; da regulamentação ao banco central, etc.

Após as eleições municipais foram aparecendo possíveis nomes e forças políticas para a eleição de 2018. Se a eleição para presidente fosse hoje, em quem você votaria?

Quase nunca voto, Eu já li Antony Downs e a demonstração de que um voto não muda nada.

Você pretende se candidatar? Qual sua posição em relação aos partidos NOVO e PSL?

Eu? Nunca? Tem nada a ver com meu trabalho. Eu gosto de ler e não de apertar mãos.
Academia e politica são duas coisas muito diferentes. A ciência tem implicações politicas, claro, mas a essência é totalmente diferente. A ciência é a busca pela verdade, a politica a busca pelo poder.
Acho o NOVO e o PSL duas ótimas novidades, espero tenham sucesso, mas meu papel é alertar dos perigos do poder politico. A ciência politica e a historia mostram que geralmente quem quer mudar o sistema, é corrompido pelo sistema.
Tenho um pouco saudade de quando me envolvia menos em questões politicas, mas aqui a situação é tão urgente e me chamam só nestas coisas, então…

O coletivismo é um câncer que está enraizado em muitas coisas, uma delas é a previdência estatal. Qual sua opinião sobre a reforma da previdência?

A previdência brasileira de verdade está muito bem. Há diversas opções nos bancos. O problema é que a regulamentação gera um oligopólio e aí poucos ainda tem conta bancaria.
A previdência estatal é um desastre, como é normal que seja pois é um esquema de piramide. A única reforma da previdência séria, honesta e sustentável é fechar este sistema e privatizar tudo. Cada um faz a própria poupança, até um sistema de seguro obrigatório mínimo seria menos pior que este esquema Ponzi.
Precisa entender que a previdência estatal não tem nada a ver com a aposentadoria das pessoas. Quem inventou este sistema foi Bismarck e falou explicitamente que era para tornar as pessoas dependentes do estado,  outros objetivos são financiar o estado, contratar empregados estatais etc.

“O professor não ensina, “problematiza, conversa, bate um papo, fazem debates, cutuca o espirito critico, disperta raiva, faz revoltar”, então ninguém aprecia o conhecimento em si, a ciência pela ciência, tudo é só em função politica.”

Agora um jogo rápido com opiniões curtas. O que pensa sobre:

• PEC 55
Boa, muito moderada, mas melhor que nada.

• Marcel van Hattem
Muito Bom. Espero possa ter um impacto.

• Professores da UniCamp
A teoria desenvolvimentista é um sintoma do subdesenvolvimento, mental.

• Marcelo Freixo
Irá iludir muitos ingênuos e irá decepciona-los, depois virá outro e depois outro. É a história do marxismo.
Eu não sou marxista porque não posso me permitir este luxo.

• Paul Krugman
Superestimado.

• Gary Johnson
What is Aleppo?!

Escolha apenas uma opção:

• Responsabilidade individual ou coletiva?
-Individual, sempre.

• Brasil ou Itália? (eita hein? Risos!)
Um brasil não protecionista, aí posso importar roupa e comida da italia!

• Jair Bolsonaro ou Ciro Gomes?
Madonna mia, esta é difícil! Mas afinal acho que Gomes é pior, mistura o pior de Bolsonaro e do Lula.
South Park fala que as eleições politicas são sempre entre um “babaca inútil e um sandwich de merda”!

• Lula preso amanhã ou ano que vem?
Não gosto dele, mas não consigo torcer para que alguém vá para a cadeia.
Eu discordo das pessoas, não as odeio.

Para finalizar me diga: Como estará o Brasil daqui 10 anos, na sua opinião?

O paciente saiu duma embriaguez de vinho vermelho e está se recuperando. Entendeu que macumba e bruxarias não funcionam, entendeu que a existe uma medicina baseada na ciência e está se tratando. Tem potencial, mas cuidado porque gosta de festa!

Muito obrigado pela entrevista. Sua influência para a educação é de grande importância, principalmente no país que vivemos. Um grande abraço e até a próxima.

Obrigado a vocês pelo interesse.

https://www.capitalistamorena.com/single-post/2016/12/20/Entrevita-2—Prof-Adriano-Gianturco|

Rodolfo Gatti.