Eleições: epidemia branca?

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É dia eleições, filas nas urnas, mas todos os eleitores votaram em branco. Ninguém foi eleito, as eleições não são válidas, não se alcançou o quórum. A população está cansada e insatisfeita. A elite política é chocada, fala de “epidemia branca”, não sabe o que fazer. Isso nunca aconteceu!Tentam descobrir quem organizou tudo isso, entram em conflito com a população. No final, os políticos resolvem fazer uma greve e sair da cidade.

Não, não é o Brasil. É um relato fictício da obra Ensaio sobre a lucidez. Saramago quer mostrar como a democracia pode rapidamente entrar em uma espiral de repressão e acaba mostrando quanto, afinal, pouco peso tem a população.

Ao contrário disso, o que teremos é legitimação do status quo, “foi você que votou neles!” dirão. Claro, obrigatoriamente! É para isso que serve o voto obrigatório: tornar os súditos que obedecem em cidadãos que legitimam. “Se o voto mudasse alguma coisa, seria proibido” dizia Mark Twain.

O voto obrigatório é inegavelmente imoral, abaixa o nível médio dos votantes e tem efeitos desuniformes (favorece alguns partidos mais que outros), mas é muito comum nas democracias recentes para acostumar o povo a votar.

Muitos comparam os atuais escândalos de corrupção à operação Mãos Limpas na Itália. Lá a classe política foi quase zerada, nas eleições sucessivas não se apresentou nenhum partido com o mesmo nome ou o mesmo logo. Houve uma certa mudança de faces e nomes, mas a lógica do poder permaneceu a mesma: “mudou tudo para não mudar nada”. Neste momento, no Brasil, a insatisfação em relação à classe política está altíssima. Se o voto não fosse obrigatório, o abstencionismo aumentaria ainda mais.

Mesmo assim, abstencionismo, brancos e nulos são sempre presentes. Nas últimas eleições federais o abstencionismo foi 18,08% e os brancos 7,61%. Em BH e POA, abstenções, brancos e nulos ficaram em primeiro lugar (38,5% dos votos), no Rio e em Curitiba em segundo lugar, respeito à 2012 passaram de 26% a 32%. Milhões de votos não considerados.

Eis duas propostas: o percentual de votos brancos deveria ser descontado do fundo partidário e deveria deixar a mesma proporção de cadeiras vazias nos vários níveis das Assembleias. Desta forma, alguém teria o incentivo de tentar entender o que estes votantes querem e como tentar satisfazê-los. Se a democracia é delegação e representação, o voto em branco representa uma demanda insatisfeita.

Adriano Gianturco

agianturco@ibmec.edu.br
Professor de Ciência Política do Ibmec/MG

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2016/11/03/noticiasjornalopiniao,3667480/eleicoes-epidemia-branca.shtml