Tecnologia de regime, protecionismo e megalomania

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Pirâmides, estátuas, lápides, palácios, castelos, obeliscos, mausoléus comemorativos, o Taj Mahal da Índia, o Palácio de Versailles, etc. Os poderosos Leviatã do mundo sempre fizeram levantar concreto em forma de poesia para si mesmos. A Psicologia Política tem muitas histórias a contar sobre poder, megalomania e patologias.

Hoje os tijolos podem ter passado de moda, mas a megalomania dos poderosos permanece. Recentemente, o aspirante ditador Maduro lançou uma linha de celulares socialistas para concorrer com o imperialista iPhone. A fabrica estatal Vtelca produz os telefones Telepatria e Victoria nomes revolucionários e rigorosamente em língua autóctone (ah não, espanhol) e bolivariano. Os yankees estão servidos!

Obviamente não podiam faltar as referências ao líder máximo: no pacote e na tela há o perfil de Chávez. A cor? Que pergunta, rojo claro! Imitando Steve Jobs que apresenta os novos lançamentos, foi Maduro mesmo a apresentar os novos telefones, sem pulôver preto mas de moletom rojo Adidas! Ele se ocupa de telefones, petróleo, apreensão de opositores, mídia, afazeres constitucionais e controle de preços que nem Sarney. Tudo, exceto papel higiênico.

Os malignos falam que é uma cópia malsucedida do iPhone, mas não escutem a propaganda imperialista!

Do outro lado do mundo, Kim Jong  Un, o carcereiro da Coreia do Norte (aquele com o cabelo bonito) mandou criar um sistema operativo autárquico: Estrela Vermelha. Os 2-3 donos autorizados de computadores do país agradecem, o resto morre de fome e come grama. Depois não reclamem quando aqui gastam em estádios enquanto falta saneamento básico: tem sempre um país mais que comunista que o seu!

O software foi apresentado com uma grande cerimônia e aplausos (“é assim que a liberdade morre” dizia a rainha de Star Wars, mas este também deve ser propaganda estadunidense), se baseia nos capitalistas Linux e Firefox mas permite mais controle para o Líder. Internet obviamente é bloqueada na nação inteira.

Faz tempo, alguns construíram cidades inteiras do nada em lugares insalubres como Washington, Brasília e Latina (na época fascista se chamava Littoria). A arquitetura até se parece: grandes espaços, esplanadas, linhas retas, anônimas, prédios monumentais, uma cara angulosa a demonstrar ordem e disciplina. Uma demonstração de opulência e de poder sem precedentes.

Um famoso economista me contou que, um dia, em uma conferência, os palestrantes estivessem falando mal dos computadores Cobra, um até chegou a dizer que eram “uma merda”. Aí alguém levantou da plateia e gritou “serão até uma merda, mas são a nossa merda!”. Um verdadeiro patriota!

Um pouco como quando na Turquia o governo mandou produzir o Devrim, um carro todo turco. Wow! Resultado? Foram gastos milhões e foram produzidos apenas dois exemplares. Sorte que Dilma se esqueceu do iPad brasileiro!

Durante a guerra fria, os dois blocos ostentavam poder com missões espaciais, armas atômicas e tecnologia militar avançada. Era a corrida ao armamento. A URSS conseguiu por um homem no espaço mas falhava em por comida nas mesas das pessoas. Não mudou muita coisa.

O protecionismo, além de subsidiar empresários amiguinhos do Rei, cumpre outra grande função: a de enaltecer o orgulho nacional, até que o dinheiro acaba. E lembraremos para sempre nossos caros líderes que nos guiaram bravamente contra o inimigo externo imaginário. E o que importa se a Petrobras vale menos que bananas, afinal “o petróleo é nosso”!

Adriano Gianturco

Professor de Ciência Política IBMEC-MG